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Rebeca Andrade: o voo da rainha em 2023

A brasileira, de 24 anos, já tinha levado o ouro na Olimpíada de Tóquio, em 2021, mas agora foi ainda mais magnífico: ela destronou a americana Simone Biles

Por Diego Alejandro
25 dez 2023, 08h00 •
  • E lá foi ela. Rebeca Andrade respirou fundo ao sinal verde dos juízes, correu em direção à mesa e saltou de costas. No ar, seu corpo de 1,51 metro de altura envergou com delicadeza numa pirueta seguida de meia-volta. Na aterrissagem, como epílogo de uma sinfonia perfeita, cravou os pés no colchão — e seu nome na diminuta galeria das grandes estrelas da ginástica artística de todos os tempos. “Lindo, lindo!”, exclamou, pela televisão, Daiane dos Santos, ex-atleta, hoje cuidadosa comentarista. O espantoso movimento, batizado de Cheng, em homenagem à chinesa Cheng Fei, campeã olímpica em 2008, concedeu a Rebeca o primeiro lugar na final do salto individual no Mundial de Antuérpia, na Bélgica, realizado em outubro. A brasileira, de 24 anos, já tinha levado o ouro na Olimpíada de Tóquio, em 2021, mas agora foi ainda mais magnífico: ela destronou a americana Simone Biles.

    No Japão, há dois anos, Simone havia desistido da competição, revelando-se humana, demasiadamente humana, deprimida e pressionada. Disse, depois de uma prova, estar passando por twisties. É fenômeno conhecido na ginástica. De repente, o corpo do atleta não responde mais a ele mesmo, e suas referências desaparecem. É uma espécie de desconexão que leva à desorientação. Neste ano, ela voltou — o que fez da vitória de Rebeca, insista-se, um momento memorável. O mundo reverenciou a conquista, e agora espera o duelo das duas nos Jogos de Paris, em julho e agosto de 2024. Será uma das grandes disputas do torneio. As duas sabem claramente que representam, hoje, um chamariz de excelência. Não por acaso, fizeram questão de se deixar fotografar — com a devida e esperada viralização nas redes sociais — numa balada das boas ao fim das provas em Antuérpia. Dançavam e riam como velhas amigas, em sussurros ao pé do ouvido, uma reverenciando a outra. É parceria que Rebeca resume com a ingenuidade e a sinceridade de quem sabe das coisas. “Sempre que a gente se encontra, nos tratamos com muito carinho”, disse. “Simone sempre mostrou quanto ela torce por mim, e eu por ela”. E o mundo torce pelas duas.

    Publicado em VEJA de 22 de dezembro de 2023, edição nº 2873

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