Como o clima pode afetar nossas preferências musicais?
A análise de mais 20 mil músicas que chegaram aos topos das paradas de sucesso tornou perceptível a ligação entre canções enérgicas e climas quentes
A música é parte integrante de nossas vidas. É bastante improvável que passemos as 24h de nossos dias sem entrar em contato com ao menos um pequeno trecho de alguma canção, mesmo que involuntariamente. Elas fazem parte das celebrações e também das dores de cotovelo, ajudam a embalar as atividades físicas ou a fazer uma boa faxina. Em alguns períodos da história humana foram consideradas uma excelente forma de estabelecer a atmosfera de contato com as divindades. Não à toa, quase todas as religiões reservam um momento para cânticos ou toques sagrados. Uma indicação que a mais popular das sete artes é também a mais apreciada pelos deuses.
Apesar de sua universalidade, ainda é difícil definir com precisão quais são os elementos capazes de tornar uma música bem sucedida no competitivo mercado fonográfico. As preferências musicais estão, naturalmente, sujeitas a uma infinidade de fatores que podem incluir a qualidade, o ouvinte e o ambiente em que a música é tocada. Um recente estudo do Instituto Max Planck, em Frankfurt, porém, acrescentou mais uma variável: o clima.
Ao analisar as paradas de sucesso do Reino Unido nos últimos 66 anos (1953-2019), o que na prática significou um rol de mais de 20 mil músicas, tornou-se perceptível a ligação entre canções enérgicas e dançantes e emoções positivas, como bom humor e ânimo que, por sua vez, eram positivamente associados a climas quentes e negativamente associados a períodos de chuva e frio.
“Esta descoberta confirma pesquisas anteriores em domínios não musicais mostrando que as condições climáticas também estão associadas a certos humores e comportamentos, como crime, saúde mental e finanças”, diz Manuel Anglada-Tort, um dos autores do estudo, em entrevista a VEJA. “No entanto, nosso estudo é o primeiro a mostrar associações entre humor e clima no contexto de questões altamente subjetivas, como a música”. As descobertas desafiam a noção que o sucesso no mercado fonográfico se baseia exclusivamente na qualidade da canção.
Apesar da correlação ser perceptível, ela é limitada. Isso porque os resultados dependem da popularidade da música. As canções hiper populares, que atingiram o top 10 das paradas, eram mais suscetíveis às condições climáticas do que as canções que não atingiam os topos das listas. Isso pode sugerir que a combinação entre as músicas e o clima predominante podem ser um fator que contribui para que o som se destaque. Anglada-Tort lembra de hits como Despacito (2017), Happy (2014) e I Wanna Dance With Somebody (1987), que possivelmente contaram com um forcinha do sol para brilhar no primeiro lugar das mais ouvidas.
Os resultados não eliminam explicações alternativas para o sucesso de um som, como o papel da propaganda, a associação com outros produtos, como um filme ou uma série popular ou, mais recentemente, os sistemas de recomendação dos serviços de streaming musical. Apesar disso, o autor lembra que climas quentes e ensolarados podem ter um impacto psicológico positivo nas pessoas, o que, por sua vez, pode estimular a procura por músicas enérgicas e dançantes capazes de combinar com o estado de bom humor.
Como a análise se restringiu ao Reino Unido, ainda não está claro se os resultados podem ser ampliados para outras regiões, inclusive aquelas que oferecem clima quente na maior parte do ano. Nessas circunstâncias, as altas temperaturas e a maior exposição ao sol podem não ser percebidas como algo positivo, sendo o contrário, tempos frescos ou frios, mais próximos dessa associação. “Vemos um grande potencial para estudos transnacionais comparando uma amostra diversificada de países com diferentes padrões climáticos. Também estamos empolgados em estudar o efeito de outros fatores ambientais, como crises econômicas, eleições ou guerras”, sintetiza Anglada-Tort.






