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O pé direito da marca e o dever direito do advogado

“Começar o ano com pé direito” pode ser interpretado como algo politico e não uma expressão popular

Por Ticiano Figueiredo
24 dez 2025, 12h56 • Atualizado em 24 dez 2025, 15h51
  • Esse não é um texto sobre ser de direita ou esquerda. E já destaco que em breve escreverei um artigo sobre como a Havaianas deu a volta por cima e, da quase falência no Brasil, passou a ser um produto de luxo referência mundial. Da mesma forma que a McLaren conseguiu fazer na F1 recentemente ao conquistar os dois títulos neste ano.
    Mas esse aqui é um texto sobre profissão! E sobre o preço que se paga quando a gente confunde opinião política com postura profissional, especialmente num tempo em que a internet transformou qualquer frase em munição e qualquer marca, empresa ou pessoa em trincheira.

    O episódio recente da propaganda das Havaianas é quase didático. Em uma campanha de fim de ano, a mensagem brinca com a expressão “começar com o pé direito” e propõe algo como “começar com os dois pés”, um convite à ação, à presença, à atitude. Acontece que, no Brasil de hoje, qualquer descuido é perigoso e até mesmo mencionar “começar o ano com pé direito” pode ser interpretado como algo político e não uma expressão popular. Para um pedaço do público, aquilo foi lido como uma indireta ideológica. Da leitura para a reação foi um pulo: vídeos, ataques, pedidos de boicote. É um descuido que nenhum bom profissional pode se permitir ter.

    O ponto relevante aqui não é discutir quem “tem razão” na interpretação. O ponto é mais profundo, quase sociológico: num ambiente polarizado, a mensagem não pertence a quem emite; ela passa a pertencer a quem interpreta. A comunicação deixa de ser transmissão e vira disputa por significado. É como se a sociedade tivesse entrado num modo permanente de “leitura hostil”: tudo vira senha, tudo vira código, tudo vira sinalização de tribo. E, quando isso acontece, uma campanha de sandália deixa de ser sandália. Vira teste de fidelidade.

    Para empresas, isso é risco de marca; para profissionais, isso é risco de carreira. E o risco, hoje, é exponencial: em horas, o que era publicidade vira “caso”; em dias, o que era “caso” vira mercado e, consequentemente, vira “caos”. No primeiro dia de boicote, a controvérsia foi reportada como capaz de apagar cerca de £20 milhões do valor de mercado. No Brasil, a própria volatilidade aparece no pregão: InfoMoney registrou queda e depois recuperação dos papéis da Alpargatas, com referência a perda da ordem de R$ 152 milhões em valor de mercado na véspera, associada ao ruído do boicote e à reação nas redes.

    Agora vem o salto que interessa: muita gente ainda acha que marketing é “coisa de marca”, “coisa de produto”, “coisa de publicidade”. Não é. Marketing, no sentido mais realista e mais perigoso do termo, é gestão de percepção. E percepção é a matéria-prima da confiança. Em profissões baseadas em confiança: medicina, arquitetura, finanças, jornalismo, consultoria, e, sobretudo, advocacia, a reputação não é um detalhe: é o ativo central. Quem “vende” confiança não pode se dar ao luxo de brincar de roleta russa com a própria imagem.

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    A advocacia, além disso, tem um elemento que a torna singular: ela não é apenas uma atividade privada. A Constituição afirma que o advogado é indispensável à administração da justiça. O Estatuto da Advocacia vai além ao dizer que, mesmo no seu ministério privado, o advogado presta serviço público e exerce função social; e que seus atos no processo constituem múnus público. Isso muda tudo, porque significa que a figura do advogado não é só a de um prestador de serviço no mercado: é a de um agente institucional que ajuda a sustentar a arquitetura do Estado de Direito.

    É por isso que, sim, o advogado pode, e deve, ter convicções pessoais. Mas ele precisa entender que convicção não é licença para performance pública agressiva, e opinião não é álibi para a erosão do dever profissional. O que está em jogo não é “o que eu penso”. É “o que eu faço quando eu penso”. É como eu me comporto diante do contraditório. É como eu trato pessoas que discordam de mim. É se eu consigo separar meu impulso de cidadão da responsabilidade do meu ofício.

    Existe uma linha que a geração das redes sociais parece ter desaprendido a enxergar: a diferença entre “expressar-se” e “posicionar-se”. Expressar-se é humano. Posicionar-se, em certas profissões, é estratégico e pode ser autodestrutivo se feito sem método. Porque o mercado lê posicionamento como promessa: promessa de como você vai agir quando o cliente precisar de você. E o cliente, em geral, não quer um advogado “de um lado”. O cliente quer um advogado capaz e, principalmente, capaz de defender direitos, garantias e devido processo, independentemente do rótulo que a multidão colou nele. E quem me disse isso foi o maior gestor de crise de todos os tempos no Brasil, Mario Rosa, quando eu quis publicar um artigo durante uma operação policial, que nada agregaria a defesa dos meus clientes, mas tão somente o meu ego.

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    O Código de Ética da OAB deixa isso cristalino ao afirmar que é direito e dever do advogado assumir a defesa criminal sem considerar sua própria opinião sobre a culpa do acusado. Não é uma frase bonita: é uma declaração de civilização. Ela lembra que a advocacia não existe para agradar plateias, mas para garantir que o Estado trate pessoas como pessoas, inclusive quando a opinião pública pede o contrário. Se o advogado deixa a paixão política comandar o seu comportamento público, ele não apenas cria risco comercial; ele enfraquece, por dentro, a função institucional que dá sentido ao seu trabalho.

    É aqui que outro ponto chama bastante atenção: hoje, as pessoas “passionalizam” tudo. E, nesse excesso de paixão, começam a exigir que instituições também “tomem partido” como torcida. Exigem que a Ordem se pronuncie “por um lado” ou “pelo outro”, como se a OAB fosse um megafone de disputa eleitoral. Só que a missão institucional da OAB, por lei, é defender a Constituição, a ordem jurídica do Estado democrático de direito, os direitos humanos, a justiça social. A OAB é, antes de tudo, uma âncora institucional da advocacia, não um instrumento de guerra cultural.

    E há um detalhe que parece óbvio, mas precisa ser dito em voz alta: o advogado que hoje grita para a Ordem se comportar como partido, amanhã pode ser o advogado que vai precisar da Ordem para proteger prerrogativas, para impedir abusos, para garantir acesso, para sustentar o devido processo. Quem transforma o ambiente institucional em ringue por aplauso imediato costuma descobrir, tarde demais, que instituições enfraquecidas não salvam ninguém, nem “os nossos”.

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    Então, sim: o caso das sandálias é sobre uma marca. Mas, mais do que isso, ele é um retrato do nosso tempo: um tempo em que a comunicação foi sequestrada pela polarização, em que símbolos viraram gatilhos, em que qualquer frase pode ser convertida em “posicionamento” por terceiros. E é justamente por isso que a lição mais útil é profissional: não dá para terceirizar o controle da sua imagem ao algoritmo. Não dá para tratar reputação como se fosse um direito adquirido. Não dá para confundir coragem com grosseria, convicção com agressividade, e opinião com dever.

    No fim, não é sobre começar 2026 com o pé direito ou com o pé esquerdo. É sobre caminhar com os pés no chão: um pé na liberdade individual, porque todo advogado é cidadão e o outro na responsabilidade pública do ofício, porque a advocacia, em essência, é uma das garantias práticas do Estado Democrático de Direito. Quando a política vira identidade total, o profissional desaparece. E quando o profissional desaparece, a democracia perde uma de suas defesas mais discretas e mais fundamentais.

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