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Letra de Médico

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HIV: de uma sentença trágica a uma vida com qualidade

Especialista faz um balanço da evolução científica que permitiu controlar o vírus da aids

Por Rosana Richtmann*
16 dez 2025, 06h22 •
  • Quase quatro décadas separam os primeiros dias da epidemia de HIV nacional da realidade que vivemos hoje. No início, a doença representava uma trágica sentença: sem tratamento eficaz, poucas esperanças de qualidade de vida e taxas de mortalidade dramáticas.

    Foi um período marcado por perdas importantes — artistas como Cazuza, Freddie Mercury e Renato Russo morreram antes de a medicina avançar ao ponto em que estamos agora. Suas histórias lembram o que significava receber esse diagnóstico na ausência de recursos terapêuticos eficazes.

    Os primeiros protocolos antirretrovirais, utilizados a partir dos anos 90, eram complexos, exigiam múltiplos comprimidos por dia e traziam efeitos adversos importantes.

    Apesar das limitações, foram determinantes para a queda inicial da mortalidade e abriram espaço para melhorias decisivas. O desenvolvimento de combinações mais potentes, seguras e simples nos trouxe aos esquemas atuais, muitas vezes administrados em um único comprimido diário, com adesão mais fácil e impacto significativo na qualidade de vida.

    A consolidação científica do conceito Indetectável = Intransmissível (I=I), firmada entre o início da década de 2010 e 2016, foi impulsionada por estudos decisivos liderados por alguns dos principais grupos de pesquisa em HIV no mundo. O primeiro marco veio em 2011, com o estudo HPTN 052, conduzido pelo Dr. Myron Cohen, da Universidade da Carolina do Norte, em colaboração com a rede HPTN. Esse ensaio clínico acompanhou 1.763 casais sorodiscordantes em nove países e demonstrou uma redução de 96% na transmissão sexual quando a carga viral estava suprimida.

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    A evidência foi definitivamente consolidada entre 2014 e 2016 pelos estudos PARTNER 1 e PARTNER 2, coordenados pela University College London, que analisaram mais de 70 mil relações sexuais sem preservativo entre casais sorodiscordantes e não registraram nenhuma transmissão em pessoas com carga viral indetectável.

    Em 2023, a Organização Mundial da Saúde reiterou, em nova diretriz, que a supressão viral sustentada elimina a transmissão sexual e reduz também o risco de transmissão vertical – um avanço que vem reduzindo estigma, ampliando autonomia e transformando a forma como as relações são vividas.

    A prevenção também evoluiu com profundidade. A PrEP se estabeleceu como estratégia eficaz para reduzir o risco de infecção, e modelos epidemiológicos recentes sugerem que, com políticas robustas de acesso ao tratamento e ampliação da supressão viral, é possível reduzir progressivamente a incidência de novos casos.

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    No Brasil, o Boletim Epidemiológico HIV/Aids 2025 reúne informações essenciais sobre o cenário atual, reforçando a importância de diagnóstico precoce, início imediato do tratamento e manutenção da adesão a longo prazo.

    Hoje, viver com HIV significa, também, viver quase normalmente. A expectativa de vida se aproxima da população geral; a transmissão sexual torna-se inexistente quando há carga viral indetectável; e o risco de complicações graves diminui consideravelmente. Ainda não alcançamos a cura, principalmente pela persistência dos reservatórios virais, mas conquistamos algo que, na década de 1980, era impensável: controle do vírus, segurança terapêutica e qualidade de vida.

    A prevenção integral permanece essencial. O cuidado não se limita ao HIV: vacinas contra hepatites, HPV, influenza, pneumococo e outras infecções protegem contra doenças que podem trazer riscos adicionais. São medidas com benefício direto na saúde das pessoas que vivem com HIV e fortalecem a saúde pública como um todo.

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    A trajetória do HIV é uma das mais marcantes histórias da medicina moderna. Um percurso que começou com medo, desconhecimento e perda, e que hoje se sustenta sobre ciência robusta, políticas públicas e prevenção. É esse conjunto — diagnóstico, tratamento, educação e vacinação — que permite viver plenamente no presente e manter a esperança de que a cura, no futuro, seja mais do que uma busca: seja uma conquista definitiva.

    * Rosana Richtmann é infectologista, médica do Instituto Emílio Ribas e consultora em vacinas da Dasa

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