Eternidade e mais: filmes e séries que imaginam como é a vida após a morte
Na comédia, um triângulo amoroso subverte ideias comuns sobre um tema que sempre fascinou a humanidade e rende visões criativas no cinema e na TV
A surpresa de Larry é grande quando, após um engasgo, o idoso desperta em um trem e vê na janela seu reflexo, com a aparência que tinha aos 30 e poucos anos de idade. Na estação caótica onde todos desembarcam, ele é recebido por uma consultora do Além que lhe dá a notícia: “Você está morto”. Agora, o rapaz interpretado por Miles Teller deve escolher a Eternidade que melhor o atenda. As opções são inúmeras: há desde cenários de época com detalhes específicos, como a Alemanha da década de 1930 (mas sem nazistas, lembra a consultora), ou um mundo de nudismo — até outro no espaço sideral. Larry quer que a esposa, Joan (Elizabeth Olsen), vá junto para o local escolhido — provavelmente uma praia. Mas quando ela chega, dias depois dele, Joan reencontra seu primeiro amor, Luke (Callum Turner), que a espera nesse limbo há 67 anos. Assim se estabelece o triângulo amoroso de Eternidade (Eternity, Estados Unidos, 2025), já em cartaz nos cinemas. Joan precisa escolher entre um e outro — ou nenhum dos dois.
A comédia romântica espirituosa retoma uma tradição prolífica do cinema — e que tem raízes antiquíssimas na história da arte e da literatura. Trata-se da especulação criativa sobre como é a vida após a morte, subvertendo a ideia dominante de paraíso versus inferno. No Brasil, o cinema e a TV exploram com frequência o viés espírita, caso do sucesso de bilheteria Nosso Lar — que ganhará um terceiro filme em janeiro de 2027. Sem compromisso com conceitos religiosos, a leva hollywoodiana oferece vislumbres mais irônicos, filosóficos e saborosos sobre o mistério do que vem depois. Em comum, esses roteiros enfatizam a autonomia humana de escolher e de defender seus desejos mesmo após a morte — e a descoberta agridoce de que o lado de lá é um tanto parecido com o de cá. Romances, intrigas e sentimentos comezinhos se repetem em ambas as pontas.
A afiada série The Good Place, por exemplo, observa os protagonistas em um Além que lembra um condomínio de classe média comum, onde todos se reúnem para tomar frozen yogurt em tardes de calor. Ao longo de quatro temporadas, a trama cômica alfineta o conceito cristão de que os bons vão para o céu e os maus, para o inferno: aqui, um esquema de pontuação comportamental em vida aponta para onde vão os que morreram. Existe o lugar bom e o ruim — um médio foi criado para atender uma única mulher que teve empate. Isso até os protagonistas contestarem o sistema desatualizado e um tanto injusto. Em uma esfera mais lúdica, a animação Viva: A Vida É uma Festa mergulha na cultura mexicana, que tem a morte como um capítulo conectado à vida e à memória. “Eu admiro quem tem uma relação cultural com a vida após a morte. Fui obrigada a aceitar o que me ensinaram na igreja”, disse Elizabeth Olsen, protagonista de Eternidade, a VEJA. Hoje, ela prefere ser cética sobre o que vem depois.
Esse subgênero da fantasia teve período fértil nos anos 1940, quando os horrores da Segunda Guerra pairavam sobre o mundo. Curiosamente, os cineastas da época verteram o medo da morte em comédias adoráveis, oferecendo entretenimento em contraponto às dificuldades. É o caso do clássico O Diabo Disse Não (1943), sobre um homem que acredita merecer o inferno, mas antes deve convencer o chefão de lá. Outro título valoroso é Neste Mundo e no Outro (1946), no qual um piloto de guerra sobrevive porque o funcionário encarregado de levá-lo ao Além, um nobre decapitado na Revolução Francesa, estava distraído. O piloto, então, convoca um tribunal entre as almas na tentativa de se manter vivo. “Desde que eu vi estes filmes, sonhava em criar minha própria vida após a morte”, disse a VEJA o diretor de Eternidade, David Freyne.
Todas essas visões da vida após a morte têm uma raiz clássica: a obra do italiano Dante Alighieri (1265-1321). Poeta pioneiro e essencial, o autor de A Divina Comédia estabeleceu o imaginário cristão de como seriam o céu, o purgatório e o inferno — descrições que pautaram diversas obras de arte, como um quadro magnífico do artista florentino Domenico di Michelino (1417-1491). Os conceitos sobre pecadores e santos se dissiparam um tanto desde a Idade Média até os dias de hoje, claro. Logo, o pós-vida oferece opções mais gentis aos meros mortais.
Eternidade resume essa visão mais leve do tema. Quando desembarca do trem no filme, Larry pede para falar com Deus. A consultora que o recepciona (a ótima Da’Vine Joy Randolph) questiona: “Então você é desses?”, e lhe entrega um panfleto sobre um paraíso moldado para os que creem em Deus. “Para mim, o paraíso é o amor em suas várias formas. Espero que os espectadores reflitam não sobre a morte, mas sobre o que vale a pena em suas vidas”, diz Freyne. Que essas tramas de outro mundo nos tragam bons ensinamentos assim.
Publicado em VEJA de 28 de novembro de 2025, edição nº 2972





