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Cristovam Buarque

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A democracia de direita

A esquerda preferiu culpar os eleitores a indagar: por que falhamos?

Por Cristovam Buarque 16 jan 2026, 06h00 • Atualizado em 16 jan 2026, 12h20
  • Há cinquenta anos, a direita chilena precisou de um golpe militar para derrotar a esquerda no poder. No mês passado, uma direita ainda mais conservadora chegou ao governo democraticamente: nem o golpe militar de 1973 nem a vitória democrática de 2025 são exceções chilenas. Por décadas, a esquerda foi eleitoralmente imbatível; agora, vem sendo derrotada em diversas partes do mundo. Em 2018, ocorreu no Brasil, por pouco não se repetiu em 2022 e pode acontecer em 2026.

    Apesar dessa mudança clara no alinhamento do eleitorado, a esquerda prefere culpar os vencedores e os eleitores, em vez de se perguntar “por que falhamos” — título de um livro de minha autoria, lançado em 2019. Evita reconhecer as causas estruturais que facilitaram suas vitórias passadas e que hoje explicam suas derrotas. Não enfrenta o fato de ter perdido a capacidade de oferecer respostas convincentes às demandas dos eleitores atuais. Não vê que cresceu graças ao êxito do próprio capitalismo ao promover uma era da abundância, capaz de distribuir renda, financiar o Estado, ampliar direitos, oferecer serviços sociais, implantar infraestrutura, acolher imigrantes, urbanizar e garantir aposentadorias generosas.

    O tal período de abundância transformou-se numa era de escassez: cidades inchadas; limites ecológicos ao crescimento; incômodo com a imigração; descontentamento com mudanças nos costumes morais e religiosos; generalização da corrupção; Estado esgotado fiscal e moralmente; violência urbana; queda da reposição demográfica. Diante disso, a esquerda perdeu a capacidade de executar suas antigas bandeiras, mas não formulou novos sonhos e deixou de seduzir o eleitor.

    “O capitalismo promoveu uma era de abundância, capaz de distribuir renda e financiar o Estado”

    Mantém discursos ultrapassados ou adota posições de direita com retoques assistencialistas. O discurso colide com a realidade, a rigor. Mais do que desejar ampliar direitos, o eleitor quer preservar privilégios que a própria esquerda criou. Daí o temor aos imigrantes: os geográficos, que tentam cruzar fronteiras nacionais; os sociais, que querem saltar os muros dos condomínios; e os geracionais, para os quais devemos preservar, em vez de depredar, os bens naturais.

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    Quando mantém seus valores humanistas, a esquerda perde o voto do eleitor preocupado com seus interesses locais e imediatos; mas se abre mão desses valores, o eleitor confia mais na direita, é inegável. Ao propor baixar o preço da gasolina, a direita adapta-se melhor à escassez e transmite mais credibilidade do que a esquerda, que propõe reduzir o consumo para não deixar subir o nível do mar.

    Por isso, a direita não precisa de novos Pinochets, nem de armas. Ela consegue ser conservadora e democrática, ou “eleitorcrática”, ganhando graças à inoperância da esquerda sem propostas viáveis e sedutoras para o eleitor, porque não conseguiu compreender que o grande dilema do século XXI não é mais entre a liberdade individual da direita e a igualdade social da esquerda, mas entre o humanismo planetário de longo prazo e a democracia imediatista local.

    A esquerda perde porque não tem respostas progressistas para o dilema do nosso tempo; a direita vence porque obtém votos sendo coerentemente conservadora, ajustando-se às exigências da era da escassez e defendendo a proteção de privilégios para quem tem e para quem deseja ter, em natural anseio.

    Publicado em VEJA de 16 de janeiro de 2026, edição nº 2978

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