Costumamos atribuir significado especial a datas marcadas por coincidências numéricas. Doze de dezembro de 2012 poderia ter sido apenas mais uma delas, mas ganhou sentido próprio: foi o dia em que a ONU reconheceu, por unanimidade, que a saúde não é um luxo, é um direito. Desde então, o 12/12 passou a simbolizar a busca pela chamada “saúde universal”.
Neste ano, a campanha da OMS para a data escolheu destacar um ponto importante: metade da população mundial restringe itens fundamentais do orçamento para ter acesso à saúde. Sem dúvida há desafios persistentes por trás dessa realidade, mas cabe repensar como podemos — enquanto sociedade e indivíduos — contribuir, no cotidiano, para fortalecer esse direito.
Uma antiga metáfora, da qual sempre gostei muito, se mostra muito atual e adequada a esse contexto. Marco Aurélio, o imperador filósofo, dizia que “o que não é bom para a colmeia não é bom para a abelha”. Essa ideia simples ilumina bem a questão: se faltam prevenção, acompanhamento médico contínuo ou cuidados regulares com a saúde básica, o impacto não fica apenas no plano das estatísticas. Cedo ou tarde, ele atinge a vida concreta de cada pessoa.
A lógica, porém, funciona igualmente no sentido inverso. O que não é bom para a abelha não favorece a colmeia. E aqui entram escolhas aparentemente pequenas, mas que fazem enorme diferença: o que colocamos no prato, como lidamos com o estresse, o movimento diário, a hora de dormir, o uso das telas, a qualidade das relações que nos cercam. Cada uma dessas microdecisões molda nossa saúde e, silenciosamente, também a dos que dependem dos mesmos sistemas.
“Qualquer pequena melhora de bem-estar muda o humor, a rotina, a disponibilidade emocional”
A cultura nos lembra com frequência do poder do coletivo e de nosso papel dentro dele. Penso em Pequena Miss Sunshine, já um clássico moderno. No filme, a família protagonista — atrapalhada, barulhenta, bem distante de qualquer ideal de perfeição — só alcança seu destino quando todos colocam as diferenças de lado e se unem para empurrar a mesma Kombi. Assim também é na sociedade. Nenhum de nós chega muito longe se o restante do grupo ficar parado à beira da estrada.
No sistema público, bons hábitos individuais ajudam a aliviar a pressão sobre consultas e atendimentos que deveriam se concentrar nos casos mais complexos. Nos planos privados, escolhas saudáveis também têm impacto positivo no conjunto dos usuários. E, dentro de casa, qualquer pequena melhora de bem-estar se espalha rápido: muda o humor, a rotina, a disponibilidade emocional. Quando cuidamos de nós, criamos um círculo virtuoso.
“Saúde universal”, portanto, não é um conceito abstrato e distante. É a soma do que os governos oferecem e do que cada um consegue manter, de forma realista, na própria rotina. Não se trata de estabelecer metas inalcançáveis, mas de implementar uma espécie de “cobertura pessoal” composta de atitudes possíveis diariamente: um prato mais colorido, dez minutos de sol, uma conversa boa, uma caminhada curta, um limite bem colocado, um descanso sem culpa. Cada gesto desses tira peso dos sistemas, melhora os grupos familiares e fortalece a coletividade.
Talvez o recado mais importante deste 12/12 seja este, afinal: a saúde de todos começa bem onde estamos — no corpo de cada um. Cuidar de si é um jeito silencioso, mas poderoso, de cuidar de todos.
Publicado em VEJA de 12 de dezembro de 2025, edição nº 2974







