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“A ciência não pode parar”

Luciano Moreira, 59, fala do caminho que trilhou para ser eleito um dos dez maiores cientistas do mundo em 2025

Por Paula Freitas Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 20 dez 2025, 08h00 •
  • Era o tipo de criança que misturava produtos de limpeza e aplicava em insetos, só para ver o que acontecia. Tudo era motivo para um experimento novo. Estudava em uma boa escola pública de São Paulo e ali comecei a evoluir. Cursei engenharia agrônoma na Universidade Federal de Viçosa, em Minas Gerais, e logo me lancei à iniciação científica. Minha motivação sempre foi encontrar soluções para problemas que atingem a população. Em meus primeiros passos na pesquisa, encarei predadores de pragas que destroem tomateiros e florestas. Me apaixonei por esse universo, e acabei passando uma década na universidade. Houve muita luta aí, uma caminhada longa, às vezes exaustiva, até alcançar o lugar de destaque que hoje ocupo, com orgulho. Meu trabalho na criação de bilhões de mosquitos da dengue, que infectei com uma bactéria que impede a proliferação da doença, foi reconhecido pela prestigiada revista Nature, que me alçou à lista dos dez cientistas que moldaram a ciência em 2025.

    Sempre quis desenvolver meus estudos no Brasil e trazer inovações ao país, mas entendi que, para isso, precisava ter experiências no exterior. Na Holanda, fiz doutorado em um centro de excelência no melhoramento de plantas. Voltei a Minas nos anos 1990, só que a situação era de escassez: não havia bolsas de pesquisa, os profissionais estavam desvalorizados. Já casado e com uma filha, resolvi então aceitar o convite para um pós-doutorado nos Estados Unidos. Foi lá que entrei no mundo das doenças infecciosas, primeiro com a malária. Criei junto a outro brasileiro, Marcelo Jacobs-­Lorena, mosquitos transgênicos que bloqueavam o plasmódio, o parasita transmissor. Após quatro anos, retornei ao Brasil com a cabeça a mil. Passei no concurso da Fiocruz, mas logo estava mais uma vez dentro do avião, rumo a Queensland, na Austrália. A maior descoberta da minha carreira, o projeto que mudou minha trajetória e pode salvar vidas, aconteceu ali: depois de muito tentar, constatamos, enfim, que a bactéria conhecida como wolbachia impedia a multiplicação do vírus, freando a transmissão da doença.

    Passado todo esse tempo, ficou claro para mim que era hora de estar entre cientistas brasileiros, impulsionando a pesquisa aqui — o foco, afinal, da doença à qual venho me dedicando. A partir de uma parceria entre a Fiocruz e o World Mosquito Program, um programa internacional sem fins lucrativos, demos a partida ao trâmite para importar os ovos do inseto e receber o sinal verde do comitê de ética da Anvisa e do Ibama — uma epopeia que se estendeu por anos. Fomos a campo no Rio de Janeiro e em Niterói em 2014, ainda em pequena escala. Com apoio do Ministério da Saúde, ampliamos os municípios atendidos. Hoje, virou política pública, integrada à campanha nacional de combate à dengue. Nas cidades em que a técnica foi implementada (ela consiste em neutralizar os ovos dos insetos com a bactéria), os casos caíram até 60%. Em 2024, inauguramos a maior biofábrica de mosquitos do mundo, a Wolbito, em Curitiba.

    Como uma coisa leva à outra, foi na inauguração da fábrica que conheci enviados de instituições importantes, incluindo a Nature. Estar na lista deles não é um prêmio apenas para mim — é um empurrão para toda a ciência brasileira. Inúmeros alunos meus fizeram mestrado e doutorado no Brasil e foram embora porque não viam chance de construir uma carreira. Os que insistem em ficar precisam usar a inventividade para driblar a falta de dinheiro e insumos. A favor do brasileiro, sobra criatividade. Atingimos resultados extraordinários com pouca verba. Acho que muito nos ajudaria olhar para o modelo de outros países, onde o retorno da pesquisa é gigantesco. Não há prosperidade sem ela. Do meu lado, continuo a toda. Quero agora aplicar a mesma tecnologia para zika e chikungunya, doenças que vitimam milhares de pessoas no país. A ciência não pode parar.

    Luciano Moreira em depoimento a Paula Freitas

    Publicado em VEJA de 19 de dezembro de 2025, edição nº 2975

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