Relatório reforça que máquina bolsonarista segue poderosa nas redes
Estudo realizado pelo Observatório das Redes mostrou que perfis de políticos e páginas conservadoras dominaram debate sobre empréstimo do CAF à Argentina
Um relatório divulgado pelo Observatório das Redes, ligado à Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), mostrou que a máquina bolsonarista nas redes sociais segue com grande repercussão online. O estudo teve como foco a afirmação de que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) teria atuado para beneficiar o ministro da Economia da Argentina, Sergio Massa, com a liberação de empréstimo de US$ 1 bilhão do Banco de Desenvolvimento da América Latina (CAF) ao país, em detrimento de Javier Milei, rival de Massa na disputa presidencial local — o que foi negado pelo Planalto. Segundo a entidade responsável pelo levantamento, foram 705 publicações feitas por 464 contas, que renderam mais de 233 mil interações de 3 a 5 de outubro.
Os dados dão conta de que o assunto foi amplamente explorado nas redes, especialmente por opositores de Lula. O número maior de posts do que perfis, por exemplo, significa que algumas páginas publicaram sobre o tema mais de uma vez. Nessas publicações, o presidente foi extensamente criticado, embora o Planalto e a ministra do Planejamento, Simone Tebet, tenham desmentido a participação direta do petista na operação. As publicações que traziam as respostas do governo, no entanto, não tiveram grande repercussão, comparadas àquelas que criticavam o presidente.
Na lista de posts com maior repercussão sobre o tema, políticos apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) dominam as primeiras posições. No Facebook, por exemplo, publicação da deputada federal Carla Zambelli (PL) com críticas a Lula teve cerca de 14 mil interações.
Um vídeo publicado pela presidente nacional do PT, Gleisi Hoffmann, com declarações da ministra Simone Tebet e que buscava esclarecer a posição do governo, no entanto, teve apenas metade das interações: 7,7 mil. O cenário se repete na lista das 20 páginas com mais interações sobre o assunto, dominada por perfis conservadores e de direita e por outros parlamentares de oposição ao governo Lula, como Bia Kicis (DF) e Filipe Barros (PR), ambos também do PL.
O cenário é similar no Instagram, onde a performance de perfis de oposição é ainda mais avassaladora. Das 20 páginas que tiveram mais interações ao publicarem sobre o empréstimo à Argentina, apenas duas eram favoráveis ao posicionamento do Planalto. Entre os autores de posts com mais interações, estão o senador Sergio Moro (União), que diz que Lula “tenta afundar a Argentina ajudando o kirchnerismo nas eleições presidenciais” — o que lhe rendeu 48,8 mil interações —, e o próprio candidato à Presidência da Argentina, Javier Milei, que também critica o que chama de “casta vermelha”. Na lista estão também os deputados federais Gustavo Gayer (PL/GO) e Luiz Philippe de Orleans e Bragança (PL/SP), além de Zambelli, Kicis e o deputado estadual por São Paulo Gil Diniz (PL/SP).
“Há uma sistema montado para disseminar fake news. E o relatório mostra o quão difícil é combater a desinformação, mesmo com o esforço de desmentir o que não é fato. As publicações de esclarecimento não repercutem tanto quanto as falsas narrativas, nem atingem o público que já foi contaminado”, explica Paulo Loiola, um dos responsáveis pelo estudo.
Relembre o caso
Reportagem publicada pelo jornal “O Estado de S. Paulo” no dia 3 de outubro, ainda antes do primeiro turno da eleição presidencial argentina, revelava que “Lula atuou em operação para banco emprestar US$ 1 bilhão à Argentina e barrar avanço de Milei”. Conforme o jornal, o presidente teria feito ligação à ministra Simone Tebet (que atua como representante do Brasil no Banco de Desenvolvimento da América Latina) no fim de agosto, pedindo que ela autorizasse a operação do CAF e o dinheiro fosse enviado ao país vizinho. O reforço ajudaria na saúde financeira argentina, o que beneficiaria o ministro da Economia do país, Massa, concorrente direto de Milei, candidato da ultradireita no país.
Na manhã seguinte, em entrevista à CNN, no entanto, Tebet negou que Lula tenha interferido para destravar o empréstimo à Argentina. “Lula não me ligou. Despachei com minha secretária de assuntos internacionais, que disse que os demais países votariam a favor”, disse a ministra, que também afirmou não ter tratado do tema com o ministro da Fazenda, Fernando Haddad.
A Secom, por sua vez, disse em nota que “a informação não procede” e que a decisão pelo empréstimo “foi aprovada em 28 de julho pela diretoria do banco formado pelos países membros”. O órgão destacou ainda que “O empréstimo foi aprovado com 19 votos dos 21 possíveis”. “ Brasil possui um voto, enquanto outros cinco países (Bolívia, Colômbia, Equador, Peru e Venezuela) possuem dois votos”, diz a manifestação.
Já no fim de outubro, o primeiro turno da eleição argentina fez com que ambos — Massa e Milei — fossem ao segundo turno, que acontece em 19 de novembro.






