Referência como cientista político e historiador, Boris Fausto, professor no Departamento de Ciência Política da USP, estabeleceu um marco ao escrever, em 1969, A Revolução de 1930 — Historiografia e História. Ele propunha uma interpretação inovadora para as razões que levaram ao fim da Primeira República e o que viria a se tornar, em seguida, o Estado Novo de Getúlio Vargas. Com o tempo, e depois de sucessivos mergulhos de fôlego na trajetória do país, Fausto trocou o olhar amplo da organização social e política brasileira por narrativas mais pontuais, concentradas em casos de crime. Foi uma corajosa e bem-sucedida aventura intelectual. São dessa nova fase O Crime do Restaurante Chinês — Carnaval, Futebol e Justiça na São Paulo dos Anos 30, de 2009, e O Crime da Galeria de Cristal, de 2019. O luto era também um de seus temas de predileção, lindamente registrados nos delicados O Brilho do Bronze: um Diário, que escreveu ao longo de quatro anos para enfrentar a experiência da morte da mulher, Cynira, com quem foi casado por 49 anos, e Vida, Morte e Outros Detalhes, elegia ao irmão Ruy. Boris Fausto morreu em 18 de abril, aos 92 anos, em São Paulo.
O piano de uma geração
Na adolescência, o americano Frederick Russell Jones, nascido em Pittsburgh de uma família batista que prezava Claude Debussy e Erik Satie, começou a aprender piano ao ritmo do bebop do jazz — estilo de ênfase na técnica e nas harmonias complexas, em oposição a melodias suaves. O sax alto de Charlie “Bird” Parker e o trompete de Dizzy Gillespie se impunham com genialidade. Jones, porém, cedo percebeu que queria outra coisa da música. Convertido para a o islamismo com o nome Ahmad Jamal, construiu uma das mais influentes carreiras ao piano, sempre comedido. Em 1958, já morando em Chicago, ele gravou ao vivo um álbum seminal: At the Pershing: But Not for Me, que permaneceria dois anos entre os mais vendidos da Billboard, com ecos revolucionários, a partir de seu formato predileto, o trio de piano, contrabaixo e bateria. “Toda a minha inspiração vem de Ahmad Jamal”, disse Miles Davis. Basta ouvir My Funny Valentine para entender o efeito sobre Davis.
Provocador irônico, de sutil inteligência, Jamal não gostava de etiqueta de jazz ao que criava e que considerava expressão de racismo. Preferia chamar de “música clássica americana”. Direto ao ponto: “Na realidade, não distingo Bach ou Beethoven de Duke Ellington”, disse. “Sem Louis Armstrong, Billy Strayhorn, Sidney Bechet ou Don Byas não teria havido os Beatles e tampouco o que viria depois.” Ele morreu em 16 de abril, aos 92 anos, em decorrência de câncer na próstata. Seguia trabalhando e influenciando, o que sempre fez em quase oitenta anos de trajetória artística.
Publicado em VEJA de 26 de abril de 2023, edição nº 2838






