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Ricardo Rangel

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É hora de votar o impeachment

No desmonte da democracia, Jair Bolsonaro não para

Por Ricardo Rangel Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 25 jun 2021, 06h00 • Atualizado em 4 jun 2024, 13h31
  • Com as denúncias em torno da vacina Covaxin, Jair Bolsonaro enfrenta sua maior crise até agora. Em um país normal, sua queda seria certa, mas o Brasil não é um país normal, a queda já foi considerada certa antes e ele sobreviveu. O que acontece se sobreviver a mais esta crise?

    Jair Bolsonaro não é apenas um radical, é um antidemocrata, acredita não apenas que as pessoas não são iguais, mas que os inferiores (mulheres, homossexuais, negros, pobres, índios) devem se submeter. Com a exceção das mulheres, que teriam a função de satisfazer sexualmente o homem e de procriar, melhor seria que desaparecessem.

    Não diz isso com clareza, porque perderia voto, mas já deu incontáveis declarações mostrando que despreza e odeia minorias e, no poder, passou a atacá-­las. A Fundação Palmares persegue a cultura negra. A Funai não defende índios, o Ibama e o ICMBio acobertam desmatadores, grileiros e garimpeiros em terras indígenas. Bolsonaro liberou armas para milícias e as encoraja a matar pretos e pobres nas favelas.

    LEIA TAMBÉM: A utilidade de Bolsonaro para o Centrão e a oposição

    Bolsonaro vê quem pensa diferente como um inimigo a ser destruído: não há dinheiro para a cultura ou a ciência, o Inpe foi amordaçado, o IBGE foi asfixiado, as universidades estão para fechar, a perseguição à imprensa é permanente, assim como a demonização da esquerda e dos liberais. Até aliados, se não se submetem, são tratados como traidores e descartados.

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    “Se o presidente for reeleito em 2022, o Brasil se tornará uma nova Venezuela em poucos anos”

    No desmonte da democracia, Bolsonaro não para. O advogado-geral da União, cooptado com a promessa de uma vaga no STF, quer julgar civis em tribunais militares. A reforma administrativa pretende criar 84 000 cargos de livre nomeação, um exército de cabos eleitorais bolsonaristas. A Polícia Federal persegue os delegados independentes e reúne indícios de araque para dar respeitabilidade à tese fictícia da fraude eleitoral, pretexto para melar a eleição do ano que vem. Uma investida nova todo dia.

    Cooptado por verbas escusas, o Congresso não aprova o impeachment; o procurador-geral da República, cooptado por recondução ao cargo e futura vaga no STF, não denuncia o presidente. Só o TCU, o STF e a imprensa ainda funcionam, mas com dificuldades.

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    Só não vê o que está acontecendo no Brasil quem é cúmplice.

    Se Bolsonaro, com a ajuda cúmplice de Arthur Lira, do Centrão e de Augusto Aras, sobreviver ao escândalo da Covaxin, poderá sair mais forte do que estava antes. Com a fragmentação do centro e a rejeição a Lula, não é impossível que seja reeleito no ano que vem. Se Bolsonaro for reeleito em 2022, o Brasil se tornará uma nova Venezuela em poucos anos. No Brasil de BolsoChávez, não haverá deputados, nem senadores, nem procuradores-gerais, nem ministros do Supremo. Mas haverá cadeia para muita gente.

    É hora de a Câmara sair de seu torpor, recuperar o espírito de Ulysses Guimarães e cumprir com seu dever de votar o impeachment. É hora de o procurador-geral da República sair de seu sono letárgico, salvar o que resta de sua reputação e cumprir seu dever de denunciar o presidente ao Supremo Tribunal Federal.

    Publicado em VEJA de 30 de junho de 2021, edição nº 2744

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