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Coluna da Lucilia

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Um espaço para discutir bem estar, alimentação saudável e inovação

Prato da discórdia

A luta entre negacionistas da boa alimentação e xiitas dos orgânicos

Por Lucilia Diniz Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 4 set 2020, 06h00 | Atualizado em 4 jun 2024, 15h26

Até a década passada grandes redes mundiais de fast food começaram a ficar preocupadas com o crescimento da onda saudável no mundo. E passaram a servir salada em potes no lugar da batatinha, e maçã cortada em palitos nos lanches das crianças. O bom senso parecia reinar após anos de acusações pesadas contra o fast food. Só que tudo isso acabou com a ascensão dos negacionistas da alimentação saudável.

Os negacionistas são aquelas pessoas que não querem ver o óbvio: que o excesso da trindade gordura, sal e açúcar faz muito mal à saúde, e não só no longo prazo. Esse time reúne os fãs de hamburguerias autodefinidas gourmet, food trucks e restaurantes rústicos. Alguns deles servem verdadeiras bombas calóricas: sanduíches verticais, de vários andares, com queijo derretido sobrando pelas laterais. Esses locais são verdadeiros altares profanos onde se idolatra a caloria como fonte de prazer gastronômico.

As quantidades pantagruélicas de junk food foram aumentando ao longo do tempo. Desde que eu nasci, em meados dos anos 50, o tamanho de um sanduíche médio nos Estados Unidos cresceu três vezes, de acordo com o documentário Direto ao Assunto, da Netflix. O Brasil não ficou atrás. O IBGE mostrou que, em dez anos, a frequência no consumo de pizzas e sanduíches aumentou, enquanto diminuiu a preferência pelo arroz e feijão. O distanciamento social, de qualquer maneira, só intensificou uma tendência que já vinha sendo esboçada.

“‘A virtude está no meio’, disse Aristóteles. O bom senso não pode ficar ensanduichado entre dois extremos”

Infelizmente, a principal força de oposição aos negacionistas é a dos xiitas da alimentação natural, aqueles indivíduos que pregam que “ou você é do bem, ou não é”. São pessoas que não admitem nada além do que consta em sua cartilha restrita de ingredientes, e que cobram da sociedade um posicionamento inflexível contra transgênicos, hortaliças não orgânicas, sacrifício de animais, uso de micro-ondas, adoçante, todo tipo de alimento refinado, glúten e lactose. Disseminam a ideia de que, no campo da comida, existem vilões por toda parte!

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Há um inegável elitismo nessa posição, pois a alimentação orgânica, artesanal, fresca, integral e com proteínas vegetais de extrema qualidade, mais cara por sua própria natureza, não é para todos. Com a visão nublada por ideias rígidas, os extremistas estão cegos para os avanços tecnológicos trazidos pela indústria na busca de soluções que alcancem bilhões de pessoas (é fato que a produção “artesanal” seria insustentável para alimentar tantas bocas). E tal cegueira leva apenas a uma polarização que em nada contribui para melhorar a nutrição do brasileiro.

Precisamos entender que a indústria de fast food e a agricultura orgânica não são, isoladamente, respostas satisfatórias. A primeira ameaça à saúde coletiva; a segunda não daria conta de produzir o suficiente para alimentar o planeta. Os pratos da balança devem se manter em equilíbrio. Como diria Aristóteles, “Virtus in medium est” — “A virtude está no meio”. O bom senso não pode continuar ensanduichado entre os dois extremos.

Publicado em VEJA de 9 de setembro de 2020, edição nº 2703

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